segunda-feira, 20 de março de 2017

BIBLIOTECAS PARNAIBANAS E GABINETE DE LEITURA RANULPHO TORRES RAPOSO

                                            Alcenor Candeira Filho

I.                   BIBLIOTECAS PARNAIBANAS

     Apesar de ser uma das cidades do Nordeste brasileiro de grande tradição cultural, tendo hoje diversas faculdades públicas e privadas (inclusive duas de medicina), com cerca de treze mil estudantes universitários, - Parnaíba é dotada de poucas bibliotecas, destacando-se pelo acervo de livros e revistas, organização, direção e atendimento ao público a do SESC/CAIXEIRAL e a do Campus Ministro Reis Velloso/Universi - Federal do Piauí.
     Na administração de Mirocles de Campos Veras,foi inaugurada em 19.04.1942 a Biblioteca Pública Municipal, que leva o nome desse grande médico e administrador, organizada e estruturada pelo secretário do município, professor Benedicto Jonas Correia, que adotou, de acordo com as instruções do Instituto Nacional do Livro , o Sistema de Classificação Decimal Dewey, então o mais difundido e conhecido como classificação universal.
     Ao longo de 75 anos  de existência a biblioteca pública de Parnaíba mereceu pouca atenção dos gestores municipais, encontrando-se atualmente em precárias condições de instalação e funcionamento e com acervo completamente desatualizado e desorganizado, além de pouco frequentada pela população.
     Em qualquer cidade, especialmente nas que possuem poucos espaços culturais, como ocorre em Parnaíba, a biblioteca pública deveria ser a instituição cultural mais importante no município.
     Pelo acesso fácil e direto, as bibliotecas concorrem para a formação de leitores e promoção do hábito de leitura, indispensáveis à informação e à transmissão de conhecimentos.
     A missão essencial de centro de difusão cultural de uma cidade só pode ser cumprida se suas bibliotecas dispuserem de acervo constantemente renovado com publicações de diversos gêneros artísticos, científicos e filosóficos, bem como com equipamentos e funcionários suficientes para mantê-las em funcionamento.
     A biblioteca moderna necessita não apenas de bom acervo de livros e revistas, mas também precisa ser informatizada de modo a propiciar aos frequentadores pesquisas na internet e acesso a CDs e DVDs.

II.                 A BIBLIOTECA NO PLANO DECENAL DE CULTURA DE PARNAÍBA
     O Plano Decenal de Cultura de Parnaíba – 2015/2020 reconhece  a precariedade de nossa biblioteca pública:

                                          “O município de Parnaíba possui diver –
                             sas bibliotecas municipais, sendo a principal uma
                             localizada no centro histórico, em condições pre-
                             cárias, sem iluminação adequada, estantes que –
                             bradas, ausência de climatização apropriada, li –
                             vros velhos, rasgados, edições desatualizadas,
                             sem ficha catalográfica e sem um sistema de ca –
                             talogação informatizado.”

     No que se refere à Biblioteca Pública Municipal e às de  esco –
las  da rede pública, o Plano Decenal de Cultura estabelece como principais metas:
                                      “- Reformar com a máxima urgência a  Bi -
                               blioteca Pública Municipal de Parnaíba, con  -
                               forme as normas de segurança, climatização,
                               biblioteconomia, catalogação de livros, infor-
                               matização de acervos para consultas, emprés-
                               mos, devoluções, etc.; 
                            
                                        - Ampliar o número de atendimentos atra -
                                vés do aumento  de unidades pela cidade de bi-
                                bliotecas, informatizando acervos, ampliando a
                                quantidade de livros e otimizando recursos pa-
                                para revitalizar o acervo clássico de toda a rede
                                de bibliotecas municipais da cidade;
                                        - Desenvolver projetos que dinamizem   o
                                espaço das bibliotecas como: espaço de áudio/
                                vídeo, saraus, oficinas e workshops, rodas de
                                leitura e contação de histórias, debates literá –
                                rios, palestras etc., com programação divulga –
                                da na agenda cultural da cidade.”

     Como esse Plano, aprovado pela Lei nº 3011, de 10.08.2015, terá vigência até 2025, fica a esperança de que  tais metas sejam alcançadas.

III.              A BIBLIOTECA NO PLANO NACIONAL DE CULTURA

     Segundo o livro AS METAS DO PLANO NACIONAL DE CULTURA (Ministério da Cultura, outubro de 2013, 3ª edição), “a pesquisa ‘Retratos da leitura no Brasil’, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2007, revela que a média anual de leitura da população brasileira, fora do que é solicitado pela escola, é de 1,3 livros. Esse é um número considerado baixo, em comparação com outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2006, a média de leitura fora da escola era de 5,1 livros por ano. Na França, a média foi de 7 livros lidos, na Inglaterra 4,9 e na Colômbia 2,4”.      
     O Plano Nacional de  Cultura (Lei nº 12.343, de 02.12.2010), com duração de 10 anos, apresenta na área de bibliotecas  as seguintes metas a serem alcançadas até 2020:
     “- Média de quatro livros lidos fora do aprendizado formal por ano, por cada brasileiro;
      - 100% dos municípios brasileiros com ao menos uma biblioteca pública em funcionamento;
      - 50% de bibliotecas públicas modernizadas;
      - 100% de bibliotecas públicas disponibilizando informações sobre seu acervo no SNIIC (Sistema Nacional de Informatizações e Indicadores Culturais).”

IV.             GABINETE DE LEITURA RANULPHO TORRES RAPOSO
     
     Ranulpho Torres Raposo, natural de Miguel Alves-Pi, nasceu em 28.05.1900, passando a residir em Parnaíba com quatro anos de idade, cidade em que viveu, com pequeno período de ausên- cia,  até o falecimento em 23.09.1980.
     Casado com Benedita do Rego Torres, com quem teve cinco filhos: Maria José, Alba, Florice, Ranulpho e Socorro.
     Empresário bem sucedido, fundou a empresa de represen –
tações, comissões e consignações Ranulpho Torres Raposo, com filial em Fortaleza.
     Ranulpho foi dirigente de diversas entidades: presidente da Associação Comercial de Parnaíba, fundador e presidente do Rotary Clube de Parnaíba, presidente da Companhia de Luz e Força de Parnaíba, presidente da Federação do Comércio Ata-
cadista do Piauí, presidente do Conselho Regional do SESC no Piauí, tendo sido ainda membro fundador de várias entidades culturais: Cenáculo Piauiense, Grêmio Literário Dramático Jonas da Silva e Jornal do Comércio de Parnaíba.
     Foi diretor-proprietário do ALMANAQUE DA PARNAÍBA (fundado por Benedicto dos Santos Lima em 1924, que o manteve até 1941) no período de 1942 a 1982, com 41 edições ininterruptas. Patrono da Cadeira nº 29 da Academia Parnaibana de Letras-APAL. Publicou: “A Bacia do Parnaíba”, “A Navegabilidade do Rio Parnaíba” e “Lar Paterno”.
     Dedicado à família, aos amigos e ao trabalho, guardo nitidamente na memória, já que morava bem próximo de seu estabelecimento comercial, na avenida presidente Vargas, a imagem do senhor elegante, que não dispensava paletó e gravata, deslocando-se de segunda a sábado de sua residência na rua coronel José Narciso para o escritório comercial, em passos vagarosos mas firmes. Logo reconhecido, dificilmente se detinha, mas para todos transmitia um gesto de simpatia e uma palavra amável.  Como dirigente do SESC no Piauí, poderia dispor facilmente de automóvel e motorista para o trajeto de casa para o trabalho e deste para casa, mas preferia fazê-lo a pé.
     Teve atuação marcante na construção do Parnaíba Pálace Hotel, do SESC  na av. pres. Vargas e do SESC na beira rio. Definitivamente, foi um grande cidadão que até hoje não recebeu uma homenagem à altura de sua trajetória de vida.
     Faço  essas referências ao senhor Ranulpho para me reportar a um importante empreendimento  a que vem se dedicando seu neto, o professor Manuel Domingos Neto, com apoio de familiares, no sentido de dotar Parnaíba de um espaço cultural – o Gabinete de Leitura Ranulpho Torres Raposo.
     Historiador, pesquisador, escritor, deputado federal pelo Piauí (1089/1991), doutor em História pela Universidade de Paris, superintendente da Fundação CEPRO (Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí), vice-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor aposentado da Universidade Federal do Ceará e que já residiu em Parnaíba, Teresina, Fortaleza, Rio de Janeiro, Londres e Paris, - Manuel Domingos Neto retornou em 2016 à cidade natal, onde coordena cursos de doutorado na Universidade Estadual do Piauí-UESPI e se dedica à recuperação do prédio da avenida presidente Vargas em que seu avô mantinha atividade empresarial, com o propósito de nele instalar
O Gabinete de Leitura Ranulpho Torres Raposo.
     O Gabinete de Leitura, que deverá ser inaugurado no decorrer deste ano, vai dispor de um acervo de cerca de sete mil livros e será informatizado. A coleção completa do ALMANAQUE DA PARNAÍBA, com 69 edições, fará parte desse acervo.
     Para uma cidade de 150 mil habitantes e de grande tradição cultural, mas de poucas bibliotecas, o Gabinete representará importante conquista.

     Parabéns, professor Manel Domingos Neto. Você é um grande cidadão que honra a cidade natal, o país e a tradição familiar.